O mito do laissez faire e o marxismo da mídia

O trecho abaixo é de um texto de George Reisman.

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O mito de que o laissez faire existe nos EUA atual e de que ele é o responsável pela atual crise econômica é propugnado por pessoas que não têm conhecimento algum sobre uma teoria economia sólida e racional ou sobre a real natureza de um capitalismo laissez faire. Elas defendem tal idéia apesar de terem estudado – ou melhor, por terem estudado – nas principais faculdades e universidades do país e do mundo. Em termos de assuntos econômicos, essas pessoas foram educadas inteira e exageradamente nas doutrinas totalmente falaciosas e perniciosas de Marx e Keynes. Ao alegarem ver a existência de um laissez faire em meio a todas essas maciças interferências governamentais, que constituem o exato oposto do laissez faire, elas estão tentando reescrever a realidade com o intuito de fazê-la se conformar às suas visões e preconcepções marxistas do mundo.

Elas absorvem as doutrinas de Marx muito mais nas aulas de história, filosofia, sociologia e literatura do que nas aulas de economia. As aulas de economia, conquanto normalmente não sejam marxistas, fornecem apenas refutações altamente insuficientes das doutrinas marxistas e dedicam quase a totalidade do tempo defendendo o keynesianismo e outras doutrinas anticapitalistas menos conhecidas, tais como a doutrina da concorrência perfeita e pura.

São muito poucos os professores e alunos que já leram uma única página sequer dos escritos de Ludwig von Mises, que é o teórico supremo do capitalismo e alguém cujo conhecimento dos escritos é essencial para se obter uma compreensão profunda do capitalismo. Quase todos eles, portanto, são essencialmente ignorantes de uma teoria econômica sólida.

Quando eu digo que o sistema educacional e a mídia são marxistas, não estou insinuando que seus membros defendem a socialização completa da propriedade ou que eles são necessariamente defensores do socialismo. O que estou dizendo é que eles são marxistas na medida em que aceitam as idéias de Marx em relação à natureza e ao funcionamento do capitalismo laissez faire.

Eles aceitam a doutrina marxista de que, na ausência de uma intervenção governamental, o interesse próprio e a busca do lucro – a “cobiça desenfreada” – dos empresários e capitalistas iriam derrubar o salário para um mínimo de subsistência, enquanto que elevariam as horas de trabalho para o limite da resistência humana, impondo condições de trabalho horríveis e obrigando crianças pequenas a irem trabalhar nas fábricas e nas minas. Eles apontam para o padrão de vida miseravelmente baixo e para as terríveis condições suportadas pelos assalariados nos primórdios do capitalismo, principalmente na Grã-Bretanha, e acreditam que isso comprova sua argumentação. E eles prosseguem, argumentando que foram apenas as intervenções do governo na forma de legislações pró-sindicatos e pró-salário mínimo, leis de jornada máxima de trabalho, proibição de qualquer trabalho infantil, e decretos referentes às condições de trabalho, que serviram para melhorar as condições dos assalariados. Eles acreditam que a revogação dessas legislações levaria a um retorno das miseráveis condições econômicas do início do século XIX.

Eles vêem os lucros dos empresários e capitalistas como sendo ganhos imerecidos e injustos, arrancados dos assalariados – supostamente os verdadeiros produtores – pelo equivalente à força física, donde consideram que os assalariados são escravos virtuais (“escravos assalariados”) e que os capitalistas “exploradores” são os virtuais donos de escravos. Intimamente ligado a isso, eles consideram que a tributação dos empresários e capitalistas e o conseqüente uso desses proventos em benefício dos assalariados, em aplicações como a seguridade social, a saúde pública, a educação pública, e as moradias públicas, são políticas que servem pura e simplesmente para devolver aos assalariados uma pequena porção da renda que alegadamente lhe foi pilhada durante o processo da “exploração”.

Em total acordo com Marx e sua doutrina de que, sob o capitalismo laissez faire, os capitalistas expropriam toda a produção do assalariado acima do nível necessário para sua mínima subsistência, eles crêem que a intervenção do governo não prejudica ninguém, exceto os capitalistas e empresários imorais. Nunca os assalariados. Assim, não apenas os impostos utilizados para pagar pelos programas sociais, mas também os salários mais altos determinados pelas legislações pró-sindicatos e pró-salário mínimo, são tidos como saídos unicamente dos lucros, sem qualquer efeito negativo sobre os assalariados, como o desemprego. O mesmo raciocínio se dá para o efeito da menor carga horária de trabalho imposta pelo governo, para as condições de trabalho melhores e para a abolição do trabalho infantil: os custos maiores resultantes dessas políticas simplesmente são considerados como se saídos da “mais-valia” dos capitalistas, e nunca do padrão de vida dos próprios assalariados.

Essa é a mentalidade de toda a esquerda e em particular dos membros do sistema educacional e da mídia. É a visão de que a busca pelo lucro e pela satisfação material são inerentemente letais caso não sejam forçosamente retaliadas e rigidamente controladas pela intervenção governamental. É, como foi dito, uma visão que considera os empresários e os capitalistas como sendo donos de escravos, não obstante o fato de que empresários e capitalistas não utilizam armas, chicotes ou correntes para encontrar e manter seus trabalhadores. Ao contrário, a única arma do capitalista e do empresário é oferecer melhores condições e melhores salários em relação ao que esses trabalhadores poderiam encontrar alhures.

Não surpreendentemente, o sistema educacional e a mídia compartilham a visão de Marx de que o capitalismo laissez-faire é uma “produção anárquica”, o qual os empresários e os capitalistas gerenciam atabalhoadamente, como galinhas sem cabeça. Na visão deles, racionalidade, ordem e planejamento emanam apenas do governo, e não de participantes no mercado.

E essa, como eu disse, é a estrutura intelectual da grande maioria dos professores de hoje e de suas várias gerações predecessoras. E essa é exatamente a mesma estrutura intelectual de seus alunos, que zelosamente absorveram seus ensinamentos equivocados e que acabaram, alguns deles, se tornando repórteres e editores das principais publicações midiáticas, tanto jornais como revistas. É a intelectualidade de seus alunos que hoje comenta e comanda as edições de praticamente todos os canais de notícias.[10] E é através dessa estrutura intelectual que a mídia hoje tenta entender e reportar a atual crise financeira.

De acordo com a visão deles, o capitalismo laissez faire e a liberdade econômica são uma fórmula para a injustiça e para o caos, ao passo que o governo é a voz e o agente da justiça e da racionalidade nas questões econômicas. Tão firmemente eles mantêm essa crença que, quando vêem algo que pensam ser evidência de injustiça e caos em larga escala no sistema econômico, tal como ocorreu na atual crise financeira, eles automaticamente presumem que isso seja o resultado previsível da busca pelo interesse próprio e da liberdade econômica que torna possível essa busca. Dada essa atitude básica, o princípio que guia os “jornalistas” contemporâneos é a idéia de que sua função é encontrar os empresários e capitalistas que são responsáveis pela maldade e os funcionários do governo que deram a liberdade para eles cometerem esse mal. Finalmente, uma vez cumprida a missão acima, a tarefa final passa a ser identificar e apoiar as políticas de intervenção e controle governamental que supostamente irão eliminar o mal e impedir sua repetição no futuro.

Seu temor e ódio da liberdade econômica e do capitalismo laissez-faire, bem como a necessidade que sentem de serem capazes de denunciar o sistema como sendo a causa de todos os malefícios econômicos, são tão grandes que eles chegam ao ponto de fingir para eles mesmos e para sua audiência que tal sistema de fato existe no mundo atual, quando ele claramente não existe nem remotamente. Ao fazerem a assertiva de que o laissez faire existe e é o responsável pelo problema atual, eles se tornam aptos a direcionar toda a força do ódio que sentem pela liberdade econômica e pelo capitalismo laissez faire contra aquela mínima fatia de liberdade econômica que, de alguma maneira, conseguiu se manter existindo e contra a qual os iluminados agora decidiram desferir sua fúria. Essa fatia, eles alegam, é a responsável total pela inanição dos trabalhadores na desumana exploração da mão-de-obra que, em sua ignorância, eles garantem que é imposta pelos capitalistas sob um sistema laissez faire. Suas platéias, já devidamente doutrinadas pela lavagem cerebral tanto da mídia como do ambiente educacional que freqüentaram, rapidamente passam a seguir ordens e ajudam no esforço de estimular o ódio.

O resultado é sentenciado por palavras como as que seguem, que apareceram em um daqueles mesmos artigos do The New York Times que eu havia citado antes:

Temos agora uma raiva coletiva, uma repulsa, por todo o sistema financeiro, e é óbvio que teremos uma forte reação regulatória… cujos efeitos irão se transmitir para outros setores porque os eleitores estão com a consciência de que “as grandes empresas são animais selvagens e elas precisam ser colocadas em suas jaulas”[11]

E é dessa maneira que os inimigos do capitalismo e da liberdade econômica se mostram capazes de prosseguir sua campanha em prol da destruição econômica e da devastação. Eles utilizam a acusação de “laissez faire” como uma espécie de gazua para aumentar os poderes do governo. Por exemplo, no início dos anos 1930, eles acusaram o presidente Hoover de estar seguindo uma política laissez faire, mesmo com ele intervindo maciçamente na economia para impedir a queda dos salários, queda essa que era essencial para evitar que uma reduzida demanda por mão-de-obra se transformasse em desemprego em larga escala. O desemprego maciço que previsivelmente resultou dessa intervenção de Hoover, e o qual eles tiveram êxito em justificar como sendo conseqüência do laissez faire, foi utilizado ardilosamente por eles para enganar todo o país, fazendo as pessoas apoiarem resolutamente as intervenções ainda maiores que surgiram depois, com o New Deal.

Hoje, eles continuam jogando esse mesmo jogo. Sempre denunciando o laissez faire e sempre alegando que os fracassos desse fantasma precisam ser superados com ainda mais regulamentações e controles governamentais. Hoje, as maciças intervenções não só do New Deal, mas também do Fair Deal (Truman), da New Frontier (Kennedy), da Great Society (Johnson) e de todas as administrações subseqüentes, foram acrescentadas àquelas mesmas grandes intervenções que já existiam ainda na década de 1920 e às quais Hoover substancialmente expandiu. E, ainda assim, supostamente continuamos vivendo sob o laissez faire. Parece que enquanto alguém continuar sendo capaz de se mover e respirar sem estar sob o jugo do estado, o laissez faire continuará sendo a política dominante, o que torna necessário a criação de ainda mais controles governamentais.

O ponto final lógico desse processo é que, um dia, todos terminarão acorrentados a uma parede, ou ao menos sendo forçados a fazer algo tipo viver em um CEP cujos números sejam os mesmos do seu CPF. E então o governo saberá exatamente quem é cada um, onde essa pessoa está e deixará claro que ela não poderá fazer absolutamente nada sem antes ter obtido a devida aprovação e permissão do estado. E então o mundo estará a salvo de qualquer um que tente fazer algo que o beneficie e que, por isso, supostamente prejudique os outros. E, quando chegarmos a esse ponto, o mundo irá desfrutar toda a prosperidade gerada pela total paralisia.

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